Boas Práticas com base em AWP no Gerenciamento de Implantação de Hospitais

Por:Editor Midias
Destaque | Engenharia | Gestão de Projetos

05

abr 2025

A implantação de um hospital é uma das atividades mais complexas dentro do setor de infraestrutura, combinando exigências técnicas, operacionais, regulatórias e urbanísticas em um único empreendimento. O hospital moderno é mais que uma edificação — é um sistema integrado que precisa atender às necessidades clínicas e logísticas da assistência em saúde, às exigências legais e sanitárias, e ainda operar com eficiência econômica.

O sucesso da implantação depende de decisões estratégicas tomadas ainda nas fases iniciais, como a escolha da localização e a definição do escopo funcional. Fases subsequentes — engenharia, suprimentos, construção e comissionamento — devem ser planejadas e gerenciadas de forma integrada, disciplinada e com forte participação dos stakeholders.

Este artigo apresenta as principais boas práticas no gerenciamento de implantação de hospitais, com foco em escopo, cronograma, riscos, integração e stakeholders, com base exclusivamente nos estudos contidos nos documentos analisados (constam nas referências). A utilização da metodologia AWP para obras hospitalares é altamente recomendada, como veremos a seguir.

1. Escolha da Localização e Estudo do Entorno
A decisão sobre onde implantar o hospital deve considerar fatores logísticos e urbanísticos. Os estudos destacam a importância de analisar:

  • Capacidade de infraestrutura local (acesso a redes de energia, água e esgoto);
  • Acessibilidade para pacientes, funcionários e ambulâncias;
  • Impacto no tráfego local e necessidade de intervenções viárias;
  • Proximidade com centros urbanos e facilidade de evacuação em emergências.

Prática observada: em projetos com sucesso, foram realizados estudos de impacto viário e análises do fluxo de ambulâncias para garantir acesso rápido e seguro, além da separação clara entre rotas de emergência, logística e visitantes.

2. Fase de Engenharia
A fase de engenharia bem conduzida reduz incertezas na construção. O envolvimento de equipes clínicas e operacionais desde o início é essencial para definir os requisitos funcionais.

Boas práticas documentadas incluem:

  • Desenvolvimento de “mock-ups” físicos ou digitais para validar o layout com usuários;
  • Compatibilização detalhada entre projetos civis, elétricos, hidráulicos, gases e climatização;
  • Planejamento reverso a partir da data de comissionamento clínico.

Exemplo extraído dos estudos: onde as validações técnicas com usuários foram realizadas antes da obra, observou-se menor volume de retrabalho e alterações durante a construção.

3. Suprimentos
A área de suprimentos deve alinhar as necessidades técnicas com a disponibilidade de mercado, evitando interrupções e retrabalho. Em projetos hospitalares, a seleção de fornecedores deve considerar a experiência prévia em obras de saúde e a qualidade técnica dos produtos.

Boas práticas destacadas:

  • Avaliação de fornecedores com base em critérios técnicos (não apenas preço);
  • Planejamento antecipado de equipamentos de longa entrega (ex: chillers, geradores);
  • Contratos com cláusulas de desempenho para instalação de sistemas críticos.

Observação prática: atrasos em suprimentos para gases medicinais e HVAC foram fatores críticos de risco em projetos com desempenho inferior.

4. Fase de Construção
A execução da obra deve ser conduzida de forma sequenciada, com pacotes por zonas funcionais, permitindo que áreas sejam finalizadas e comissionadas de forma independente.

Práticas eficazes:

  • Adoção de equipes fixas por zona ou sistema (centro cirúrgico, UTI, apoio logístico);
  • Realização de reuniões semanais com engenheiros de campo, projetistas e suprimentos;
  • Instalação modular e pré-montagens para áreas técnicas (salas de painéis, banheiros, shafts).

Situação observada: o uso de cronograma físico-financeiro alinhado às etapas construtivas permitiu acompanhar o avanço da obra e ajustar a alocação de recursos de forma dinâmica.

5. Gestão do Escopo
Escopos bem definidos e “congelados” antes da construção reduzem riscos de alteração em obra. Mudanças de escopo devem passar por um processo formal de avaliação.

Boas práticas relatadas:

  • Registros formais de solicitações de mudança (Change Register);
  • Avaliação técnica e financeira das solicitações antes de aprovação;
  • Definição de limites claros entre escopo da contratante e da construtora.

Impacto observado: projetos com processos de controle de escopo estruturados apresentaram menor índice de atrasos e disputas contratuais.

6. Gestão do Cronograma
Os cronogramas hospitalares devem considerar atividades paralelas e sequenciais, com marcos específicos para inspeções regulatórias e comissionamento.

Recomendações extraídas dos estudos:

  • Planejamento por zonas e sistemas (bloco cirúrgico, ambulatório, UTI, etc.);
  • Reservas de tempo para ajustes de campo e testes de sistemas;
  • Cronogramas integrados com entregas de equipamentos e atividades regulatórias.

Exemplo prático: obras com planejamento detalhado do comissionamento obtiveram liberação sanitária em menos tempo após a construção.

7. Gestão de Riscos
A identificação e o monitoramento contínuo dos riscos são essenciais para manter o projeto sob controle.

Riscos frequentes identificados:

  • Falta de disponibilidade de materiais críticos;
  • Interferências entre disciplinas de projeto;
  • Mudanças solicitadas por stakeholders tardios;
  • Atrasos regulatórios e exigências imprevistas.

Boas práticas observadas:

  • Atualização trimestral da matriz de riscos;
  • Planos de contingência para aquisição e instalação de sistemas hospitalares;
  • Inclusão de tempo reserva para imprevistos técnicos e legais.

8. Gestão da Integração
Projetos de hospitais exigem integração forte entre contratante, projetistas, fiscalizadores e executores.

Boas práticas documentadas:

  • Escritório de projeto com representação técnica e clínica;
  • Reuniões semanais com registros padronizados e plano de ação;
  • Ferramentas integradas de acompanhamento (dashboards, BIM, controle de entregas).

Resultados percebidos: maior engajamento entre as partes e menor índice de disputas por atraso ou qualidade.

9. Gestão dos Stakeholders
A diversidade de partes interessadas em projetos hospitalares exige gestão proativa e organizada.

Boas práticas incluíram:

  • Mapeamento de stakeholders com análise de influência e interesse;
  • Oficinas de validação de soluções com equipes clínicas e operacionais;
  • Limitação da participação de stakeholders não decisórios em fóruns críticos.

Constatação dos estudos: projetos com maior envolvimento técnico dos stakeholders relevantes apresentaram soluções mais alinhadas à operação real do hospital.

10. Comissionamento
O comissionamento é a transição entre obra e operação, garantindo que sistemas funcionem conforme especificações.

Fases observadas:

  • Testes técnicos dos sistemas (elétrico, HVAC, TI, gases);
  • Validação funcional com usuários (clínicos, manutenção, segurança);
  • Documentação de conformidade e manuais operacionais.

Prática destacada: o uso de agentes de comissionamento independentes aumentou a qualidade da entrega e reduziu reclamações após a ocupação.

11. Aplicação de AWP na Implantação de Projetos de Construção de Hospitais

A metodologia Advanced Work Packaging (AWP) tem se consolidado como uma abordagem eficaz para garantir previsibilidade, produtividade e alinhamento entre engenharia, suprimentos e construção. Quando aplicada a projetos hospitalares — que envolvem grande complexidade técnica, múltiplos sistemas interdependentes e alta exigência regulatória — o AWP permite organizar a execução em pacotes estruturados e integrados, otimizando os fluxos de trabalho e reduzindo riscos típicos como retrabalho, interferências e paralisações.

11.1 Como aplicar AWP em obras hospitalares

  1. Definição antecipada do Construction Work Package (CWP) por zona funcional

    • Em hospitais, é recomendável que os CWPs sigam a lógica de áreas clínicas: por exemplo, bloco cirúrgico, pronto atendimento, UTI, internação, setor de imagens.

    • Cada CWP contempla as disciplinas envolvidas (civil, elétrica, hidráulica, gases, HVAC) e estabelece limites claros de escopo.

  2. Engineering Work Packages (EWPs) compatíveis com o planejamento de campo

    • A engenharia deve liberar os projetos com foco na sequência de execução dos CWPs.

    • Exemplo: liberar primeiro o projeto completo da UTI (EWP) para viabilizar seu início antecipado no campo (CWP), especialmente se o cronograma exigir entrega parcial da área para obtenção de licença sanitária.

  3. Procurement Work Packages (PWPs) alinhados com os CWPs

    • A aquisição de equipamentos e sistemas críticos deve considerar a lógica dos CWPs.

    • Exemplo: prever a chegada e instalação dos chillers, painéis elétricos, tanques de vácuo e compressores exatamente na janela de tempo da execução do respectivo CWP.

  4. Instalação por Workface Planning (IWPs)

    • As equipes de campo recebem pacotes prontos para execução (IWP), contendo todos os recursos necessários: projetos, materiais, ferramentas, procedimentos e instruções.

    • Isso reduz tempo ocioso e melhora a produtividade da obra.

11.2 Exemplo prático de aplicação de AWP em hospital

Durante a implantação de um hospital geral com 250 leitos, a metodologia AWP foi aplicada com as seguintes ações:

  • O projeto foi dividido em seis CWPs principais: fundações, estrutura, bloco cirúrgico, UTI, internação e apoio técnico.

  • A equipe de engenharia antecipou a liberação completa do EWP da UTI, que era uma área crítica para o cronograma.

  • Os materiais e equipamentos para essa zona (PWP), como painéis de gases medicinais e filtros HEPA do HVAC, foram priorizados na logística.

  • A execução da UTI ocorreu com base em pacotes IWPs semanais, monitorados com dashboards de avanço físico e produtividade.

  • Resultado: a UTI foi finalizada com duas semanas de antecedência, possibilitando o início antecipado do comissionamento técnico da área.

Tipo de Pacote AWP Nome do Pacote Aplicação no Contexto Hospitalar Benefícios Observados
EWP (Engineering Work Package) EWP – Bloco Cirúrgico Liberação antecipada dos projetos executivos do bloco cirúrgico para compatibilização multidisciplinar. Evita interferências entre HVAC, gases medicinais e estruturas metálicas.
PWP (Procurement Work Package) PWP – Gases Medicinais Planejamento de compras e entregas de cilindros, painéis e válvulas de oxigênio para a UTI. Reduz atrasos por falta de material crítico durante a instalação.
CWP (Construction Work Package) CWP – UTI Adulto Sequenciamento da obra por zona funcional. Pacote inclui estrutura, elétrica, hidráulica, acabamentos e instalação de equipamentos fixos. Permite execução simultânea de frentes, antecipando o comissionamento.
IWP (Installation Work Package) IWP – Shaft Técnico Entrega semanal para equipes de montagem contendo todos os materiais, projetos e EPIs para instalação de dutos e redes técnicas. Aumenta a produtividade e reduz tempo de espera por recursos.

Tabela 1 – Aplicação de AWP na Implantação de Hospitais por Tipo de Pacote

11.3 Benefícios observados com AWP em projetos hospitalares

  • Redução de retrabalho por antecipação de interferências entre disciplinas;

  • Melhor visibilidade do avanço real da obra, com foco nos pacotes produtivos;

  • Integração entre engenharia, compras e execução;

  • Menor tempo de paralisação por falta de materiais ou projetos;

  • Aumento da previsibilidade para comissionamento e licenciamento sanitário.

12 Dicas e Orientações

✅1. Congele o escopo antes do início da construção
Alterações no escopo durante a execução comprometem prazos e custos. Projetos bem-sucedidos documentaram todas as exigências clínicas e operacionais previamente, com envolvimento dos stakeholders certos (ex: engenheiros clínicos, gestores assistenciais), e só iniciaram a obra após o escopo estar validado e “congelado”.

✅ 2. Use mock-ups físicos ou digitais para validar os ambientes
Uma prática eficaz destacada foi o uso de maquetes ou ambientes-teste (mock-ups) para simular UTIs, salas cirúrgicas e consultórios. Essa abordagem permitiu ajustes antes da execução real, evitando retrabalhos e insatisfações dos usuários após a entrega.

✅ 3. Planeje a construção por zonas funcionais
Dividir a construção por zonas (bloco cirúrgico, internação, apoio logístico, etc.) permite que diferentes equipes trabalhem simultaneamente e que o comissionamento ocorra em etapas. Isso reduz o risco de paralisações e melhora a gestão do cronograma.

✅ 4. Integre engenharia, suprimentos e construção desde o início
Falhas de compatibilização entre projetos, compras mal programadas e decisões isoladas são causas comuns de retrabalho. Projetos bem gerenciados utilizaram reuniões regulares entre os times de projeto, suprimentos e obra, além de plataformas digitais de coordenação.

✅ 5. Garanta experiência hospitalar dos fornecedores e construtores
A contratação de empresas com histórico em obras hospitalares foi um fator decisivo. Fornecedores despreparados erraram em pontos críticos como instalação de gases medicinais, HVAC e acabamentos higiênicos. A pré-qualificação técnica deve ser critério obrigatório.

✅ 6. Estabeleça uma rotina disciplinada de coordenação e decisão
Projetos bem-sucedidos realizaram reuniões semanais com atas e planos de ação, onde participavam representantes de obra, projetistas e responsáveis técnicos. Isso acelerou a resolução de conflitos em campo e garantiu a rastreabilidade das decisões.

✅ 7. Comissionamento deve ser planejado desde o início
O comissionamento não pode ser improvisado ao final. É essencial planejar testes de sistemas (elétrico, HVAC, gases, TI), envolver os usuários operacionais e documentar cada etapa. Equipes que trataram o comissionamento como fase estratégica entregaram hospitais funcionais e prontos para operar.

Referências
Ling, F. Y. Y., & Li, Q. (2019). Managing the development & construction of public hospital projects. IOP Conference Series: Materials Science and Engineering, 471(2), 022001. https://doi.org/10.1088/1757-899X/471/2/022001

Gokhale, S., & Gormley, T. (2014). Construction management of healthcare projects. McGraw-Hill Education. https://www.amazon.com/Construction-Management-Healthcare-Projects-Gokhale/dp/0071781919

Project Production Institute. (n.d.). Advancing Advanced Work Packaging (AWP). Project Production Institute. Retrieved April 5, 2025, from https://projectproduction.org/journal/advancing-advanced-work-packaging-awp/


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