A implantação de um hospital é uma das atividades mais complexas dentro do setor de infraestrutura, combinando exigências técnicas, operacionais, regulatórias e urbanísticas em um único empreendimento. O hospital moderno é mais que uma edificação — é um sistema integrado que precisa atender às necessidades clínicas e logísticas da assistência em saúde, às exigências legais e sanitárias, e ainda operar com eficiência econômica.
O sucesso da implantação depende de decisões estratégicas tomadas ainda nas fases iniciais, como a escolha da localização e a definição do escopo funcional. Fases subsequentes — engenharia, suprimentos, construção e comissionamento — devem ser planejadas e gerenciadas de forma integrada, disciplinada e com forte participação dos stakeholders.
Este artigo apresenta as principais boas práticas no gerenciamento de implantação de hospitais, com foco em escopo, cronograma, riscos, integração e stakeholders, com base exclusivamente nos estudos contidos nos documentos analisados (constam nas referências). A utilização da metodologia AWP para obras hospitalares é altamente recomendada, como veremos a seguir.
1. Escolha da Localização e Estudo do Entorno
A decisão sobre onde implantar o hospital deve considerar fatores logísticos e urbanísticos. Os estudos destacam a importância de analisar:
Prática observada: em projetos com sucesso, foram realizados estudos de impacto viário e análises do fluxo de ambulâncias para garantir acesso rápido e seguro, além da separação clara entre rotas de emergência, logística e visitantes.
2. Fase de Engenharia
A fase de engenharia bem conduzida reduz incertezas na construção. O envolvimento de equipes clínicas e operacionais desde o início é essencial para definir os requisitos funcionais.
Boas práticas documentadas incluem:
Exemplo extraído dos estudos: onde as validações técnicas com usuários foram realizadas antes da obra, observou-se menor volume de retrabalho e alterações durante a construção.
3. Suprimentos
A área de suprimentos deve alinhar as necessidades técnicas com a disponibilidade de mercado, evitando interrupções e retrabalho. Em projetos hospitalares, a seleção de fornecedores deve considerar a experiência prévia em obras de saúde e a qualidade técnica dos produtos.
Boas práticas destacadas:
Observação prática: atrasos em suprimentos para gases medicinais e HVAC foram fatores críticos de risco em projetos com desempenho inferior.
4. Fase de Construção
A execução da obra deve ser conduzida de forma sequenciada, com pacotes por zonas funcionais, permitindo que áreas sejam finalizadas e comissionadas de forma independente.
Práticas eficazes:
Situação observada: o uso de cronograma físico-financeiro alinhado às etapas construtivas permitiu acompanhar o avanço da obra e ajustar a alocação de recursos de forma dinâmica.
5. Gestão do Escopo
Escopos bem definidos e “congelados” antes da construção reduzem riscos de alteração em obra. Mudanças de escopo devem passar por um processo formal de avaliação.
Boas práticas relatadas:
Impacto observado: projetos com processos de controle de escopo estruturados apresentaram menor índice de atrasos e disputas contratuais.
6. Gestão do Cronograma
Os cronogramas hospitalares devem considerar atividades paralelas e sequenciais, com marcos específicos para inspeções regulatórias e comissionamento.
Recomendações extraídas dos estudos:
Exemplo prático: obras com planejamento detalhado do comissionamento obtiveram liberação sanitária em menos tempo após a construção.
7. Gestão de Riscos
A identificação e o monitoramento contínuo dos riscos são essenciais para manter o projeto sob controle.
Riscos frequentes identificados:
Boas práticas observadas:
8. Gestão da Integração
Projetos de hospitais exigem integração forte entre contratante, projetistas, fiscalizadores e executores.
Boas práticas documentadas:
Resultados percebidos: maior engajamento entre as partes e menor índice de disputas por atraso ou qualidade.
9. Gestão dos Stakeholders
A diversidade de partes interessadas em projetos hospitalares exige gestão proativa e organizada.
Boas práticas incluíram:
Constatação dos estudos: projetos com maior envolvimento técnico dos stakeholders relevantes apresentaram soluções mais alinhadas à operação real do hospital.
10. Comissionamento
O comissionamento é a transição entre obra e operação, garantindo que sistemas funcionem conforme especificações.
Fases observadas:
Prática destacada: o uso de agentes de comissionamento independentes aumentou a qualidade da entrega e reduziu reclamações após a ocupação.
11. Aplicação de AWP na Implantação de Projetos de Construção de Hospitais
A metodologia Advanced Work Packaging (AWP) tem se consolidado como uma abordagem eficaz para garantir previsibilidade, produtividade e alinhamento entre engenharia, suprimentos e construção. Quando aplicada a projetos hospitalares — que envolvem grande complexidade técnica, múltiplos sistemas interdependentes e alta exigência regulatória — o AWP permite organizar a execução em pacotes estruturados e integrados, otimizando os fluxos de trabalho e reduzindo riscos típicos como retrabalho, interferências e paralisações.
11.1 Como aplicar AWP em obras hospitalares
Definição antecipada do Construction Work Package (CWP) por zona funcional
Em hospitais, é recomendável que os CWPs sigam a lógica de áreas clínicas: por exemplo, bloco cirúrgico, pronto atendimento, UTI, internação, setor de imagens.
Cada CWP contempla as disciplinas envolvidas (civil, elétrica, hidráulica, gases, HVAC) e estabelece limites claros de escopo.
Engineering Work Packages (EWPs) compatíveis com o planejamento de campo
A engenharia deve liberar os projetos com foco na sequência de execução dos CWPs.
Exemplo: liberar primeiro o projeto completo da UTI (EWP) para viabilizar seu início antecipado no campo (CWP), especialmente se o cronograma exigir entrega parcial da área para obtenção de licença sanitária.
Procurement Work Packages (PWPs) alinhados com os CWPs
A aquisição de equipamentos e sistemas críticos deve considerar a lógica dos CWPs.
Exemplo: prever a chegada e instalação dos chillers, painéis elétricos, tanques de vácuo e compressores exatamente na janela de tempo da execução do respectivo CWP.
Instalação por Workface Planning (IWPs)
As equipes de campo recebem pacotes prontos para execução (IWP), contendo todos os recursos necessários: projetos, materiais, ferramentas, procedimentos e instruções.
Isso reduz tempo ocioso e melhora a produtividade da obra.
11.2 Exemplo prático de aplicação de AWP em hospital
Durante a implantação de um hospital geral com 250 leitos, a metodologia AWP foi aplicada com as seguintes ações:
O projeto foi dividido em seis CWPs principais: fundações, estrutura, bloco cirúrgico, UTI, internação e apoio técnico.
A equipe de engenharia antecipou a liberação completa do EWP da UTI, que era uma área crítica para o cronograma.
Os materiais e equipamentos para essa zona (PWP), como painéis de gases medicinais e filtros HEPA do HVAC, foram priorizados na logística.
A execução da UTI ocorreu com base em pacotes IWPs semanais, monitorados com dashboards de avanço físico e produtividade.
Resultado: a UTI foi finalizada com duas semanas de antecedência, possibilitando o início antecipado do comissionamento técnico da área.
| Tipo de Pacote AWP | Nome do Pacote | Aplicação no Contexto Hospitalar | Benefícios Observados |
|---|---|---|---|
| EWP (Engineering Work Package) | EWP – Bloco Cirúrgico | Liberação antecipada dos projetos executivos do bloco cirúrgico para compatibilização multidisciplinar. | Evita interferências entre HVAC, gases medicinais e estruturas metálicas. |
| PWP (Procurement Work Package) | PWP – Gases Medicinais | Planejamento de compras e entregas de cilindros, painéis e válvulas de oxigênio para a UTI. | Reduz atrasos por falta de material crítico durante a instalação. |
| CWP (Construction Work Package) | CWP – UTI Adulto | Sequenciamento da obra por zona funcional. Pacote inclui estrutura, elétrica, hidráulica, acabamentos e instalação de equipamentos fixos. | Permite execução simultânea de frentes, antecipando o comissionamento. |
| IWP (Installation Work Package) | IWP – Shaft Técnico | Entrega semanal para equipes de montagem contendo todos os materiais, projetos e EPIs para instalação de dutos e redes técnicas. | Aumenta a produtividade e reduz tempo de espera por recursos. |
Tabela 1 – Aplicação de AWP na Implantação de Hospitais por Tipo de Pacote
11.3 Benefícios observados com AWP em projetos hospitalares
Redução de retrabalho por antecipação de interferências entre disciplinas;
Melhor visibilidade do avanço real da obra, com foco nos pacotes produtivos;
Integração entre engenharia, compras e execução;
Menor tempo de paralisação por falta de materiais ou projetos;
Aumento da previsibilidade para comissionamento e licenciamento sanitário.
12 Dicas e Orientações
✅1. Congele o escopo antes do início da construção
Alterações no escopo durante a execução comprometem prazos e custos. Projetos bem-sucedidos documentaram todas as exigências clínicas e operacionais previamente, com envolvimento dos stakeholders certos (ex: engenheiros clínicos, gestores assistenciais), e só iniciaram a obra após o escopo estar validado e “congelado”.
✅ 2. Use mock-ups físicos ou digitais para validar os ambientes
Uma prática eficaz destacada foi o uso de maquetes ou ambientes-teste (mock-ups) para simular UTIs, salas cirúrgicas e consultórios. Essa abordagem permitiu ajustes antes da execução real, evitando retrabalhos e insatisfações dos usuários após a entrega.
✅ 3. Planeje a construção por zonas funcionais
Dividir a construção por zonas (bloco cirúrgico, internação, apoio logístico, etc.) permite que diferentes equipes trabalhem simultaneamente e que o comissionamento ocorra em etapas. Isso reduz o risco de paralisações e melhora a gestão do cronograma.
✅ 4. Integre engenharia, suprimentos e construção desde o início
Falhas de compatibilização entre projetos, compras mal programadas e decisões isoladas são causas comuns de retrabalho. Projetos bem gerenciados utilizaram reuniões regulares entre os times de projeto, suprimentos e obra, além de plataformas digitais de coordenação.
✅ 5. Garanta experiência hospitalar dos fornecedores e construtores
A contratação de empresas com histórico em obras hospitalares foi um fator decisivo. Fornecedores despreparados erraram em pontos críticos como instalação de gases medicinais, HVAC e acabamentos higiênicos. A pré-qualificação técnica deve ser critério obrigatório.
✅ 6. Estabeleça uma rotina disciplinada de coordenação e decisão
Projetos bem-sucedidos realizaram reuniões semanais com atas e planos de ação, onde participavam representantes de obra, projetistas e responsáveis técnicos. Isso acelerou a resolução de conflitos em campo e garantiu a rastreabilidade das decisões.
✅ 7. Comissionamento deve ser planejado desde o início
O comissionamento não pode ser improvisado ao final. É essencial planejar testes de sistemas (elétrico, HVAC, gases, TI), envolver os usuários operacionais e documentar cada etapa. Equipes que trataram o comissionamento como fase estratégica entregaram hospitais funcionais e prontos para operar.
Referências
Ling, F. Y. Y., & Li, Q. (2019). Managing the development & construction of public hospital projects. IOP Conference Series: Materials Science and Engineering, 471(2), 022001. https://doi.org/10.1088/1757-899X/471/2/022001
Gokhale, S., & Gormley, T. (2014). Construction management of healthcare projects. McGraw-Hill Education. https://www.amazon.com/Construction-Management-Healthcare-Projects-Gokhale/dp/0071781919
Project Production Institute. (n.d.). Advancing Advanced Work Packaging (AWP). Project Production Institute. Retrieved April 5, 2025, from https://projectproduction.org/journal/advancing-advanced-work-packaging-awp/